O Brasil, como diversas partes do mundo passa por um processo de envelhecimento populacional crescente, e este fenômeno se constitui numa realidade nova para nós pois que está a exigir todo um tratamento sistêmico e multidisciplinar capazes de poder oferecer soluções efetivas a esta nova demanda sócio econômica e cultural para nossa cidade, São Carlos, e região.

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Antes de fazermos qualquer colocação, cabe destacar o árduo trabalho realizado pelos gerontológos, pelos cuidadores e pelos abrigos de idosos com todo quadro de profissionais que diariamente se desdobram para dar o melhor que podem.

Entretanto falta uma ação planejada, advinda do tratamento sistêmico e integrado dos diversos agentes, das instituições e dos mecanismos de ação. Prescinde o município de políticas públicas específicas para os idosos. O poder público, que deveria ser protagonista e assumir sua responsabilidade de coordenação e de incentivo, se coloca distante e torna coadjuvante, deixando uma vez mais, uma responsabilidade que é especificamente sua à mercê de pessoas e das entidades do Terceiro Setor.

Nossos idosos estão amparados pela Lei nº 10.741, federal, de 01/10/2003, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso, com mais de cem artigos e que explicita de forma bastante nítida todos os direitos a eles assegurados. Em seu artigo 10º, § 3o: “É dever de todos zelar pela dignidade do idoso, colocando-o a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”. Este artigo me chamou muito atenção pelos seguintes fatos: a lei é de suma importância e resguarda o idoso, porém na prática tudo é muito diferente, distante ou mesmo desconexo, do que está no espírito da lei e nas suas claras manifestações.

Segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, temos atualmente em nosso país mais de 30 milhões de idosos, ou seja, aproximadamente 15% de toda nossa população. Do ano de 2012 para cá, tivemos um acréscimo de quase cinco milhões de idosos, representando um significativo aumento de 18% e entre os anos de 2012 a 2018, e de forma geral, a população idosa brasileira cresceu 26%. O número de idosos que tem buscado moradia em abrigo de idosos ou casas de repouso, aumentou exponencialmente, em aproximadamente 33% também nos últimos anos, efeito do envelhecimento populacional mundial.

Fazendo um levantamento mais amplo, segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde, no ano de 2050, o número de pessoas com 60 anos ou mais irá ultrapassar a casa dos dois bilhões de pessoas no mundo e no Brasil, em 2030, o número de idosos será maior que o de crianças de 0 a 14 anos.

Os números estão aí, postos e nós, o que temos feito produtivamente para melhorar este cenário que chega a ser perverso?

Falando do setor público, precisamos voltar nossos olhos aos idosos, aqueles que tanto fizeram e contribuíram e precisam ser reconhecidos e amparados por isso. Discutimos diariamente a tão falada e necessária reforma da previdência, que é manchete de sites e jornais, o congresso mexe daqui, o senado quer mexer dali, o presidente da república e seus ministros querem mexer acolá… Entendemos que essas discussões são extremamente válidas e plausíveis mas não são suficientes para o novo ambiente sócio cultural que se aproxima. Acredito que falta à sociedade civil também ser chamada a participar, pois é ela é quem será impactada diretamente com as mudanças, tanto da maior longevidade como das garantias constitucionais.

Porém, quero chamar a atenção para outro tema que não pode ser apenas plano de fundo dessa discussão e que precisa ser trazido á tona: a atenção primária no atendimento ao idoso em todos os sentidos. Nossos estabelecimentos de saúde estão preparados para atender nossos idosos? O transporte público consegue acolher nossos idosos como merecem? As áreas de lazer para prática de exercícios contemplam atividades para nossos idosos? Existem programas voltados para realização de atividades aos idosos? Temos mesmo dado todo respeito que eles merecem? Sabemos que cada vez mais nossos idosos são ativos, porém para isto precisam estar sempre em movimento. Afinal, como se define um indivíduo idoso? Como lhe garantir emprego e renda após os cinquenta anos? Como mantê-lo produtivo, num mundo de aceleradas inovações? Como aproveitar sua experiência de vida na capacitação de jovens?

Cabe reforçar, adicionalmente, que é hora de aproveitarmos a sua experiência e vivência pois podemos contar com um tesouro escondido, de grande potencial não aproveitado, que se denomina: idosos. Temos muito a aprender com eles e mais do que isso, eles ainda tem muito a contribuir conosco e com a sociedade.

Valorize seus pais, seus avós, tios, irmãos, são os idosos de hoje que contribuíram para a formação de nossa sociedade do passado e do presente, e seremos nós, idosos do futuro, que elaboraremos a sociedade de nossos filhos e netos.

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* O autor é Cientista Político, Cientista Social e Antropólogo pela UFSCar -Universidade Federal de São Carlos. Graduando em História pela UNIP -Universidade Paulista, Assessor Parlamentar e apaixonado pela vida. É colunista dos sites: São Carlos Agora, Sucesso São Carlos, Região em Destake, São Carlos Dia e Noite e da Revista Ponto Jovem.